Nos vários momentos marcamos nossa atuação, na construção dos três encontros de mulheres negras realizados no Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Dentro da CONEN realizamos discussões entre homens e mulheres, pois não havia ainda definição de uma proposta de política de gênero da entidade. Diante desse entendimento no conjunto da luta do movimento negro, estivemos presentes, cumprimos nosso papel e estabelecemos, mesmo que de forma simbólica, nosso espaço político e de ação. Acreditamos ainda que se faça necessário qualificar nossa atuação, seja no campo da organização de mulheres ou da organização dentro da CONEN.
Este primeiro Seminário de Gênero, realizado em Salvador/Bahia (2006) pela CONEN, tem o compromisso de orientar, de forma coletiva, as ações para superar as desigualdades de gênero.
As mulheres da CONEN estiveram presentes na Marcha de Durban, 2001, na África do Sul, na Marcha Brasil Outros 500, em 2000, em Porto Seguro/Bahia; na Marcha Zumbi + 10, realizada em 22 de novembro, em Brasília.
Em reunião nacional da CONEN, optamos por declarar apoio à eleição do presidente Lula e fomos à única organização que declarou voto. Acreditamos no projeto político em curso, apostamos na construção da SEPPIR, contribuímos em sua formulação, embora ainda seja tímida a participação nas decisões políticas que foram necessárias neste processo.
Sabemos que as ações das mulheres da CONEN são diferenciadas na medida em que estamos construindo coletivamente uma política de gênero, mas precisamos avançar na organização feminista. Um feminismo que tenha a história de luta da mulher negra.
Sabemos que nessa luta estão presentes mulheres dos diversos segmentos populares, urbanos e rurais, sindical, entidades ligadas ao movimento negro, religiosas e quilombolas, entre outras.
Reconhecemos que no conjunto da ação do movimento das mulheres negras há diferenças entre a nossa atuação e a daquelas que se organizam em ONG´s. Temos um segmento ligado à Articulação de ONG´s negras, de caráter nacional, que anteriormente participavam da CONEN.
Essa diferença não deveria ser entrave para a manutenção de metas unitárias, mas a discussão, embora pareça simples, é central e nos divide na medida em que acreditamos na autonomia das mulheres, mas também entendemos que é preciso ampliar o leque de discussões, inserir todas as mulheres em processo libertário e de emancipação não separando homens de mulheres, mas estabelecendo eqüidade e direitos iguais de acesso.
Temos também o Fórum Nacional de Mulheres Negras, que nasceu do III Seminário Nacional de Mulheres Negras do Brasil, realizado em 2005, em São Paulo. Uma ação iniciada por mulheres ligadas à CONEN, que encaminhou proposta aprovada no III Encontro Nacional de Mulheres Negras.
A proposta inicial contemplava a visão de participação de diversos setores de organização de mulheres negras que estavam naquele encontro, com a seguinte configuração: Fórum formado por três mulheres de cada estado presente (quinze estados presentes), portanto, o Fórum teria 45 mulheres, indicadas pelos fóruns ou articulações estaduais lá representadas, que seriam indicadas pelo seu estado em um prazo de seis meses para a coordenação do encontro que a partir da formação do Fórum se dissolveria, passando as tarefas para o próximo encontro a este Fórum .
Acontece que no meio do caminho a proposta perdeu este caráter e foi criado um Fórum Provisório. Depois da reunião em São Paulo, foi criado o Fórum Nacional distanciado daquela concepção inicial e por isso com vários ruídos políticos.
Um destes ruídos foi o distanciamento da participação de setores listados (dos 15 estados) na sua concepção e um empoderamento de setores que estão fora da CONEN.
Cabe ressaltar que, embora esta proposta inicial tenha sido dada por setores da CONEN, não havia nenhuma deliberação da mesma para participarmos do Encontro Nacional e nem de estabelecermos este tipo de estrutura.
Hoje enfrentamos problemas sérios em relação a este Fórum, pois a representante da Secretaria Executiva Nacional por vezes teve ações contrárias às orientações das mulheres que estão na CONEN, embora tenhamos companheiras empenhadas em demover a executiva deste caminho tortuoso, o desvio da rota do Fórum acaba sendo vencido por esta imposição extemporânea e autocrática deste setor.
Quando optamos pela Marcha Zumbi + 10 do dia 22 de novembro, marchamos unidas com a CONEN e demais segmentos dos movimentos negros e de diferentes movimentos sociais.
Houve uma ruptura no campo da concepção de movimento que colocou algumas companheiras próximas da CONEN a optarem pela marcha de 16 de novembro, que representaram as posições do campo da centro-direita do movimento negro.
Nossa Plataforma Política da CONEN em relação a Gênero, Raça e Classe na conjuntura eleitoral de 2006 deve apontar os encaminhamentos do Seminário Nacional de Mulheres Negras, Urbanas, Rurais e Quilombolas da CONEN, levando em consideração todo o acúmulo político que tem marcado a trajetória das mulheres negras, e as bandeiras políticas que ao longo da caminhada foram construídas.
Apostamos no projeto político em curso e queremos avançar, garantindo as mais antigas reivindicações das mulheres negras e efetivando as propostas de políticas públicas apontadas na Conferência Nacional de Mulheres e na Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, realizada em 2005.
Não cabe aqui neste documento evidenciar todos os problemas que afligem as mulheres negras, levantar dados ou apontar diagnósticos, pois estes já fazem parte de vários textos, pesquisas e diagnósticos, mas a partir do que já está acumulado, propor as mudanças necessárias.
Enfrentaremos nas disputas eleitorais, como nunca enfrentamos o adversário no cenário eleitoral.
Faltou participação popular, controle social? Sim, podemos dizer que sim, embora nunca na história dos governos brasileiros tenha ocorrido tanta participação. Foram mais de dois milhões de pessoas participando diretamente de conferências nacionais, apontando políticas públicas, o que significou transparência na execução das políticas.
Acreditamos que o melhor método é o participativo. Ele é mais justo e consequentemente o mais eficiente. Podemos dizer que o método participativo avançou muito em políticas setoriais, mas não proporcionou a mudança global das políticas gerais, por exemplo, no plano econômico.
Participaram mais de 140 mil mulheres da Conferência Nacional de Mulheres, sendo que na Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial mais de 100 mil pessoas estiveram envolvidas.
A partir destas duas Conferências podemos apontar o quanto os movimentos contribuíram neste processo, mas também entendemos que os movimentos sociais, particularmente a CONEN, não apresentaram nenhuma proposta enquanto grupo.
Mas acreditamos que tudo é um processo e estamos de fato construindo nossas propostas e apontando a toda a sociedade, politicamente, que tipo de governo queremos.
Por isso nós, mulheres reunidas no Seminário Nacional de Mulheres Negras da CONEN, acreditamos que a relação de gênero dentro da CONEN contribui para a organização de uma sociedade igualitária.
É necessário que criemos mecanismos, até o próximo Encontro da CONEN, de efetivação de uma política de gênero capaz de dialogar com os movimentos negros e feministas, dentro do Brasil, nas Américas e no Continente Africano. Estabelecendo, por meio desta política, a cara das mulheres da CONEN, por um movimento feminista negro, popular, sindical e classista.
Assinam este documento as mulheres das entidades negras presentes ao Seminário Nacional de Mulheres da CONEN: