Manifesto Favela RExiste

A colonização moderna, legitimada pelo cristianismo ocidental foi mediada pela imposição de um modelo eurocêntrico de ciência, acabando por difundir uma narrativa única sobre a História da humanidade. Não à toa pouco se sabe sobre a verdadeira história do continente africano, muitas vezes representado segundo um olhar branco e europeu. Antes da chegada dos colonizadores, este que é um dos maiores continentes da terra, era regido por grandes reinos, com modelos de organizações notáveis e bem desenvolvidos segundo suas tradições. A exploração de suas terras e da mão de obra para escravização em outros territórios foi justificado através da ideia de uma hierarquias entre as “raças”, sendo a raça branca superior a todas as outras principalmente a negra africana, tida como atrasada e subdesenvolvida e que precisava ser “salva” para a civilização. O efeito disso tudo foi a opressão o extermínio e a violência contra vários povos e culturas africanas bem como suas memórias, provocando um verdadeiro epistemicídio de sua história.

Mesmo após as independências, a colonização deixou um lastro de heranças negativas e uma delas é o racismo contra os descendentes de africanos escravizados. O Brasil é um dos países em que o povo negro mais sofre com a opressão, extermínio e exploração dos seus corpos e possui uma dívida enorme com a população negra devido à anos de escravidão, que fizeram com que homens e mulheres se desgarrassem de seus territórios vindo de diversas partes da África, obrigados a atravessar o oceano atlântico nos navios negreiros, em condições sub-humanas e inseridos de forma violenta e brutal no novo contexto. Ao invés de quitar essa dívida o Estado brasileiro acaba por se tornar uma verdadeira “máquina da matar preto”, visto que atualmente segundo o mapa da violência de 2017 de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 delas são negras, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças. Legitimado pela ciência e por políticas de governo consolidando-se nas instituições, assim como na cultura e no imaginário popular, formando ideologias e comportamentos de ódio, raiva e preconceito, contra os descendentes de africanos, sendo esta uma construção cruel e violenta de graves consequências, seja para os africanos ou afro-brasileiros. Essa “máquina da morte” funciona de diversas formas e em diferentes espaços, onde quer que se tenham pessoas negras; o corpo negro, um corpo violentado de várias formas, desde a negação a direitos fundamentais e humanos à morte. Para ilustrar ainda mais essa realidade, no ano de 2002, apenas 35, 9% de jovens negros com idade entre 15 e 17 anos frequentavam o ensino médio, sem contar que no ensino superior a situação é ainda mais grave; apenas 18,9% de jovens negros com idade entre 18 e 24 anos frequentavam alguma instituição superior. Essa situação reflete a desigualdade e a ausência do estado quando o assunto é a população negra. Esses número só obtiveram uma melhora durante o governos progressistas do presidente Luís Inácio Lula da Silva e da ex-presidenta Dilma Rousseff, tendo esta última sofrido recentemente um golpe de Estado pelo atual Michel Temer.

Mesmo com muitos avanços, as políticas públicas não atendem de forma efetiva no combate às desigualdades estruturantes, e a população negra, que se encontra nos piores indicadores sociais, acaba por se encontrarem em constantes vulnerabilidades sociais. Quando passamos para o debate das desigualdades de gênero as mulheres negras se encontram em uma situação ainda mais alarmante, pois são as que mais sofrem com as desigualdades. Só para exemplificar, as mulheres negras ganham 40% menos que homens brancos no Brasil, segundo pesquisa do IPEA 2016, e isso se reflete na qualidade de vida dessas mulheres sendo as que mais sofrem com as violências de gênero, como na taxa de feminicídio além das inúmeras violências contra a população LGBT+ negra, como as homofobias, lesbofobias, transforbias e outros.

Muitos historiadores antropólogos e cientistas sociais “mudaram o curso da história” e mostraram que o continente africano sempre esteve à frente do crescimento da humanidade. Somando-se a isso, a força do Movimento Negro, trouxe mudanças significativas para a história do povo negro a exemplo da criação da Lei 10.639 de 2003 que simboliza um marco histórico no Brasil. Esta lei estabelece diretrizes e bases para a educação nacional, ressaltando a importância do ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. No entanto, essa é a penas uma muitas das lutas, pois como diz a música de Edson Gomes “A luta não acabou, E nem acabará, Só quando a liberdade raiar…”.

A campanha Favela R’Existe nasce nesse cenário lutas e batalhas a serem conquistadas para e principalmente pela população negra, através dos, morros, becos e vielas das favelas do Brasil resistindo e lutando por dias melhores em busca da tão sonhada liberdade e que, junto com os movimentos sociais, propões a transformação dessa realidade.